segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Amor e trevos

Foi a Abigail quem cuidou de mim quando a licença maternidade terminou. Uma das grandes escudeiras da minha mãe, ela era uma velha mulher de mãos pesadas, com veias que quase saltavam da pele, unhas longas e sempre bem feitas. Minha mãe me levava para a casa dela - que ficava à Praça da Bandeira, na Vila do Matoso - antes de ir para o trabalho e voltava para me buscar ao final do expediente. Não lembro bem de como era a casa, que cheiro tinha, nem o que se comia por lá. Tempos depois, Biga, ou melhor, a Bigabiguê, mudou-se para uma casa maior. Dessa eu sei tudo. Tinha uma foto do Tony Ramos na parede da varanda e discos da Elba que sempre tocavam numa vitrola que eu só podia olhar.
Ela tinha um jeito de fazer carinho que não era beijo, nem abraço. Era comprar o biscoito que eu mais gostava, era me deixar usar suas jóias e ficar pulando em cima da cama até os brincos de pressão saltarem das orelhas. Enquanto os outros sobrinhos mal passavam da sala, era eu quem podia mexer em tudo naquela casa cheia de coisas inúteis da Tia Biga, que além de tia, é minha madrinha. Ela não beijava, não abraçava, guardou minha escova de dente velha, uma boneca amarelada e fotos da menina a quem ela sempre dedicou todo o amor.
O jeito de amar da Biga era também me deixar arrancar os trevos de quatro folhas que ela cultivava no jardim. Eu dizia que queria levar sorte para os amigos da escola. Ela ficava puta, mas nunca negava. “Vai, leva logo!”, esbravejava com a voz aguda. Naquela casa eu reinava absoluta.
À tarde, o bom era colocar um disco da Elba e dançar pela sala, com ela remexendo pra lá e pra cá sem o menor jeito. Eu disfarçava, corria e puxava a saia dela só pra ver sua anágua, uma saia que ela usava sob outra saia. Ninguém mais usa anágua. Biga usava. “Mulher tem que usar anágua”, ela explicava. Só que as minhas gargalhadas eram tão sonoras que ela acabava rindo junto. “Mas é verdade. Mulher usa anágua mesmo”, tentando me convencer. Ríamos até a barriga doer. Ou até ela soltar um pum. A velha sempre peidava quando ria muito. Aí as risadas recomeçavam. Passamos muitas tardes assim.
Ainda tinha a lenda do Tim Maia. Todo mundo dizia que ela tinha sido amante do Tim. Nunca decidi se achava isso bizarro ou genial. Eu perguntava sobre o assunto e ela nada. “Vaaaaai. Me conta”, implorava. Biga ignorava. Quando decidia falar, jurava que nunca tinha visto Tim Maia mais gordo. Eu insistia até a rouquidão. Nada. Segui a vida com essa dúvida.
Nas despedidas, Biga dizia: “Peça a benção à sua madrinha, Mariana.” Eu ria dizendo que não. “Ô, porra de garota malcriada. Eu vou te bater, hein”. Nunca bateu. Eu nunca pedi a benção e sempre adorava quando ela gritava um palavrão. Ô velha desbocada.
Depois do primeiro derrame, com os movimentos da face limitados e uma grande dificuldade para se expressar, mesmo assim, eu sempre entendia quando ela reclamava de alguma coisa. Ninguém compreendia aquele balbuciar, mas eu sim. Nos olhávamos rindo discretamente. Cúmplices.
Enquanto isso, Biga envelhecia e a doença castigava aquele corpo. O tempo não perdoou. A solidão da viuvez sem filhos enrugou a alma daquela mulher forte, que nunca deixou de colecionar tralhas e guardar, como se eu ainda pudesse vestir, meus pequenos vestidos da infância.
Há cinco anos, numa das internações que a Biga sofreu, diante daquele tronco atrofiado, com pequenas fagulhas de vida, mas a mente ainda sã, finalmente, eu pedi a benção a velha Bigabiguê que deu um jeito de dizer: “Deus te abençoe, minha filha”. Neste dia decidi perguntar: “Biga, o Tim Maia tinha uma pegada boa?”, arrisquei, sob os olhares de reprovação da família. Ela balançou a cabeça dizendo sim. Sorrimos.

Resolvi postar, com algumas mudanças, este texto outra vez. Cheguei de viagem há poucas semanas e ontem estivemos juntas. Bebemos o suco do caju que eu tinha acabado de arrancar do pé. Mostrei fotos. Contei as histórias. Tudo parecia bem. Piscou forte pra me fazer entender que queria uma foto de Barcelona. Reclamou com um ar bastante cansado que demorei pra voltar. Eu concordei, quase me desculpando pela inconvência de fazê-la sentir saudade.
Por uma brincadeira de mau gosto do destino, no mesmo dia do reencontro, nos despedimos. Ontem demos nosso último beijinho. Ontem nos abraçamos. Ontem senti aquele perfume de alfazema pela última vez. Ontem todos os trevos do mundo perderam uma de suas folhas.
Enquanto isso, Tim Maia voltava a cantar pra Biga, agora, livre. Vão fazer de conta que ainda é cedo.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O dia que fiquei diante do óbvio

Ele estava ali, na minha frente. Lindo. Merecedor até dos adjetivos mais sórdidos que as mulheres desejam. Tava li. Na minha frente. E querendo estar ali mais do que qualquer outra coisa.
Poucas horas depois ele estava colado na minha boca. Entorpecidos por álcool e felicidade, não demorou muito para que estivesse dentro de mim. E fez isso com maestria. Rolamos um bom tempo no chão sujo da garagem daquele prédio do Catete até a pequena morte. Imaginei um check list e ele cumpria absolutamente tudo.
Trocamos piadinhas inteligentes. Rimos juntos. Em geral, eu amo quem me faz rir, quem mexe no meu cabelo antes de dormir. Amo ganhar mensagem logo que vou embora. Amo convites bobos no dia seguinte. Amo estar diante de uma possibilidade.
Mas veja bem, eu disse em geral... mas ontem nao. Ontem nao amei nada disso, na verdade eu queria mesmo que ele tivesse sumido rápido. Fiquei em choque diante de tudo e sem quer nada pra mim. Tava perfeito, mas eu não queria.
Foi nesse momento que eu entendi o porquê de você ter dito não. Algumas coisas simplesmente não acontecem. Não nos servem. E entender isso foi pavoroso. Dolorido. Agoniante. Vazio. Dar a nós a mais óbvia das justificativas foi tão fácil quanto engolir um cacto. Todas as vezes que eu perguntei "porque?" até para as paredes, estava lá, escrito nas entrelinhas da tua ausência: porque não.
Simples assim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ah, se...

Por Carla Barreto e Mariana Jucá

Se você fosse meu, eu estaria agora espreguiçando meus olhos em você. Você perceberia e retribuiria com uma piscadela. Eu entrelaçaria nossas mãos e diria qualquer bobagem, bem baixinho, no teu ouvido. Riríamos. E sim, eu falaria com aquela voz gemidinha, que toda mulher solteira acha ridículo, mas eu ia adorar falar assim com você.
Se você fosse meu, te perguntaria se está tudo bem... você anda tão distante, meu amor...
Se você fosse meu, eu te ligaria agora. Já faz tanto tempo, quase não conheço mais o timbre da tua voz. Se isso acontecesse, a gente ia reescrever tudo. Eu dançaria com você naquela noite. Mão na tua nuca, corpo encostado.
Se você finalmente se tornasse meu, eventualmente nós brigaríamos. Seríamos passionais e rudes. A briga duraria cinco minutos. Apenas o tempo da raiva virar urgência. Apenas o tempo de afastar os objetos da cozinha, sentar na mesa de sinuca, parar o elevador ou pular pro banco do carona. Nós adoraríamos make up sex.
Se você fosse meu eu te comporia uma música. Eu não sei tocar violão, muito menos cantar. Mas você cantarolaria junto. Se você fosse meu, talvez eu admitisse que aquele post antigo foi escrito pra você. Eu deixaria você saber que eu já te chamei apenas pela primeira letra do teu nome. E isso já teria acabado porque se você fosse meu, já não estaríamos mais travestidos de segredo.
Se você fosse meu faríamos rapel, bungee jumping e voaríamos de asa delta. Eu tenho vertigens até quando meu salto ultrapassa 12 cms. Mas com você eu pularia.
Se você fosse meu, a gente ia dormir abraçado, eu te deixaria bilhetes bobos toda vez que saísse primeiro pra trabalhar. Se você fosse meu, eu pediria pra você deixar a barba crescer porque eu gosto de arranhar o rosto de levinho quando a gente se beija. Se você fose meu, eu ia desaprender a ser só. Eu ia parar de escrever "se". De usar o quase.
Se você fosse meu, a gente se olharia sorrindo sentados na mesa de um bar, certos de que aquela piadinha subliminar que nenhum dos amigos entendeu, era só nossa. E esse ar de intimidade nos deixaria mais e mais juntos e eu trocaria nossas interrogações uma pontuação que significasse pra sempre.
Se você fosse meu, te daria uma estrela pra você olhar da tua janela toda noite. Você secretamente me acharia cafona, na verdade eu também me acharia, mas você olharia sempre.
Pensando bem, se você fosse meu, tua janela seria minha janela. Eu seria só tua e toda vez que resolvêssemos olhar nossa estrela, nos daríamos conta, cansados, de que já estava amanhecendo outra vez.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Diário de quem ficou

por Carla Barreto e Mariana Jucá

De todas as lembranças que carrego, a mais intensa é da sua respiração. Seus pulmões inflavam cada vez mais rápido, numa cadência sôfrega. Como as ondas que recuam antes da tsunami. Eu não tive tempo de te contar porque em nós sobrou muita coisa, mas faltou tempo.
Naquele segundo não vivido, ficou claro tudo que ia acontecer entre nós. Cólera. Paixão. E o destino deixou aquele gosto amargo do incompleto na minha boca. Mas desde o primeiro instante, teu olhar me condenou. Desde aquela noite em que só contabilizamos vontade. A melhor insônia que já tive. A noite não dormida que me despertou. O fechar dos olhos e as contrações involuntárias provocadas pela sua presença cronometrada. A contagem regressiva para acordar do sonho que intumesceu aqueles lençóis.
As folhas de pintura vazias, música sem som, a história que a gente não viveu. O efeito da droga mais potente já provada. Fiquei entorpecida. Era boca seca e riso fácil. Em seguida: fome. A paixão, rápida e efêmera, foi uma conseqüência inevitável e reticente do que a vida planejou. Quase uma brincadeira de mau gosto.
Mesmo sabendo disso, nos oferecemos como um banquete, dispensando guardanapo e boas maneiras. Com urgência, dor e desespero. A partir daí meu mundo entrou em pause e passei a viver com essa saudade que não cabe mais dentro de mim.
Somos o coma de um bebê prematuro. Um ensaio sem estréia. Lembranças nítidas do que não aconteceu. Definhamos a olhos nus. E eu chorei como se tivesse sentindo a morte. Gritei baixinho. Por isso eu digo que me despedi assim que te vi. Antes do beijo, antes do sim, antes do adeus. Ali, sofrer fazia todo o sentido. Acho que me despedi de mim. Alma dilacerada, posição fetal. O avião decolou e eu, inteira, já não existo mais.

sábado, 3 de outubro de 2009

Obrigada, Ronaldo

William Bonner contou em seu Twitter (@realwbonner) sobre o dia que Romário o “liberou” de ser preso. É absolutamente incrível o alcance do futebol no mundo. Enquanto lia os twitts do âncora, que descreveu o causo ocorrido na Espanha, lembrei-me de estar na Croácia e sem dinheiro suficiente para um taxi fora do planejamento. Durante a corrida, Eu e as amigas, Raquel e Renata, conversávamos pelo retrovisor tentando planejar, em silêncio, um jeito de multiplicar nossas poucas Kunas. Nada parecia razoável. Veja bem, estava muito cedo, as casas de câmbio estavam fechadas, ele não aceitava Euro e só tínhamos 10 minutos para estar na rodoviária. Agora você diz: pq não saiu mais cedo? Eu juro que tentamos, mas a história é longa. Fica pra depois.
Quando chegamos ao destino, reparei que não havia um taxímetro no veículo. O taxista pensou dez segundos e disse: 20 Kunas. Tá, eu sei que era barato. Mas juntas, tínhamos 15. Eis que eu tento explicar o ocorrido. A-há! Ele não falava inglês e ainda fez pouco das nossas posses monetárias.
Quando as meninas já ensaiavam uma lagriminha eu disse: “Ronaldo”!
Assim, absolutamente do nada. Não sei o que me deu. A expressão no rosto do coroa suado era de interrogação quando eu repeti confiante: “Ronaldo”!
E ele sorrindo, como se não acreditasse naquela palavra, devolveu: “Ronaldo”?????
Insisti na cara dura: “Ronaldo”!!!!!!!!!!!
Já fora do carro e nos ajudando a retirar as mochilas do porta-malas, ele começou a gesticular uma dança futebolística bizarra, desenhando felicidade com uma bola imaginária, enquanto, pelo pouco que eu entendi, relembrava jogadas do Fenômeno. Corremos.
Bonner disse no mini blog ainda não ter tido chance de agradecer ao Romário. Mas aqui, oficialmente, assumo que to devendo cinco Kunas pro Ronaldo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Simpatia é quase amor

Vou te contar uma coisa: nunca fui apaixonada por você. Nunca acordei a noite e fiquei te olhando encantada. Nunca escolhi uma roupa pensando se você ia gostar. Nunca dei atenção pras tuas historias. Nunca cogitei a vida com você. Nunca. Nunca liguei para o que você pensava. Nunca senti ciúme, nem nada além de uma vontade rasa. Eu nunca quis que você fosse meu porque, na verdade, eu nunca quis ser sua.
Pra ser sincera, acho todos os seus amigos idiotas. E as suas amigas só estão ali porque querem dar pra você. Ah, eu tenho pavor dos filmes que você gosta e acho que o cd que você me deu mais parece trilha sonora de ressonância magnética.
Por isso fui embora. Resolvi encarar que eu não morria de amor e pronto. Acontece. Ou não acontece, sei lá. Eu sempre achei que era preciso morrer de amor. Hoje faz um mês que dobrei aquela esquina rumo a minha solidão. Nunca pensei em chorar por isso. Mesmo pq havia certeza demais em mim. Também nunca pensei que notaria um buraco aqui dentro por causa da tua ausência. Foi então que eu percebi gostar daquele jeito que você segurava a minha mão pra descer escadas. Também gostava de ver você preparar o café amargo e deixar esfriar antes de me entregar pq aprendeu que eu gosto dele frio.
Eu gostava de ver televisão deitada no seu colo. Gostava de te olhar pelo retrovisor rezando discretamente para eu não bater o seu carro. Gostava de sentir você me cobrir de noite. Gostava do jeito que você se apresentava para os meus amigos. Da forma como contava rindo que eu vomitei no nosso primeiro encontro. Dos planos que a gente fazia mesmo que, nem por um instante, eu tivesse acreditado naquilo. Mas eu gostava de olhar na sala as flores que você mandava pra mim. Gostava de usar suas camisas pra dormir. Gostava quando a gente andava de mãos dadas estalando os dedos. Gostava do jeito como você calculava a força diante da minha miudeza. Gostava de caber fácil no seu abraço.

Eu gostava.

Mas não sabia.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Acidente deixa um ferido

Lurdinha foi atropelada há uns 10 anos ali na Avenida 24 de maio. Lembro de ouvi-la descrever a dor: nenhuma. Ela disse não ter sentido nada. Fratura exposta no braço esquerdo. Nenhuma dor. Sempre fiquei impressionada com isso. Sangue jorrando, osso pra fora e nada?
Aí eu fui atropelada. Um ônibus passou bem em cima de mim. Avenida cheia. Hora do rush. Eu até tinha consciência do risco, mas achei que daria tempo de atravessar. Não deu.
Mesmo caída, permaneci de pé. Sangue jorrando. Osso pra fora. Lembrei da Lurdinha. Não senti nada. O motorista parou. Olhou o estrago e levou as mãos à cabeça. Até chamaram a polícia, mas tinha sido mesmo um acidente. Teve gente jurando que era tentativa de homicídio. Mas foi acidente. Coisa que acontece.
Minutos depois o resgate chegou. Um dos médicos, enquanto prestava os primeiros socorros, estendeu uma cerveja e me perguntou: ta sentindo o que, menina?
Eu? Nada.
Ele sorriu e me levou pro hospital. Costuraram até onde foi possível e fui transferida para a sala de recuperação. “Vai ficar só uma cicatriz”, disse uma voz.
Permaneci numa espécie de coma induzido pelas 24 horas seguintes. Aí o efeito na anestesia passou e doeu. Ah, mas doeu muito. Liguei pra Lurdinha pra perguntar se era normal. Mas sobre isso até hoje ela não conseguiu dizer. E nela, também ficou só uma cicatriz.